Saúde mental no pós-parto: o que pode acontecer além da depressão
- Dra. Lorena Dornellas

- 30 de mar.
- 3 min de leitura
Por Dra. Lorena Dornellas — Médica Psiquiatra, CRM 63147
Quando o assunto é saúde mental no pós-parto, o primeiro nome que vem à cabeça é depressão pós-parto. Faz sentido, é o mais comum e o mais falado.
Mas o puerpério é um período em que o organismo e a vida da mulher passam por mudanças enormes. E não é só a depressão que pode aparecer.
Conhecer o espectro completo ajuda a reconhecer o que está acontecendo mais cedo, e buscar ajuda antes de o quadro se agravar.
Baby blues: o que é esperado
Afeta entre 50% e 80% das mulheres nos primeiros dias após o parto. Tristeza que vai e vem, choro fácil, irritabilidade, sensação de sobrecarga. Coincide com a queda brusca dos hormônios, a descida do leite e o retorno para casa.
O baby blues passa sozinho em até duas semanas. Não é uma doença. Não precisa de tratamento específico, mas merece atenção e acolhimento.
Depressão pós-parto: a mais comum
Acomete 10% a 20% das mulheres. Tristeza profunda que não melhora, perda de interesse nas coisas, cansaço que não passa, dificuldade de sentir vínculo com o bebê. Não se resolve sozinha. Precisa de tratamento.
Ansiedade pós-parto: muito comum, pouco falada
Menos conhecida do que a depressão, mas igualmente frequente. Preocupação excessiva com a saúde do bebê que não para, dificuldade de dormir mesmo quando o bebê dorme, irritabilidade intensa, crises súbitas de coração acelerado e falta de ar.
Muitos sintomas de ansiedade no pós-parto são tratados como 'preocupação normal de mãe nova'. Quando persistem e atrapalham o dia a dia, merecem avaliação.
Pensamentos perturbadores: o TOC perinatal
Uma das situações mais sofridas e menos comentadas do pós-parto: pensamentos que aparecem sem que a mãe queira, sobre machucar o bebê acidentalmente, deixá-lo cair, que algo de terrível aconteça com ele.
Esses pensamentos horrorizam a própria mãe. Ela não quer ter esses pensamentos e não tem intenção de agir sobre eles. Isso é o que os diferencia de uma intenção real.
Muitas mulheres não contam a ninguém por vergonha e medo de serem mal interpretadas. Mas isso tem nome, tem tratamento e é mais comum do que parece.
Trauma do parto: quando a experiência deixa marca
Partos com complicações, situações em que a mulher sentiu que não tinha controle, procedimentos que foram assustadores ou dolorosos demais. Para algumas mulheres, a experiência do parto deixa marcas que vão além do físico.
Pesadelos, reviver o parto em pensamento, evitar tudo que lembre aquele dia, ficar em alerta constante. Esses sinais podem indicar um quadro de estresse pós-traumático relacionado ao parto. E isso também tem tratamento.
Psicose puerperal: a emergência
Rara, afetando 1 a 2 em cada 1.000 partos, e grave. Começa de forma abrupta nos primeiros dias após o parto, com confusão, pensamentos que não fazem sentido e comportamento desorganizado. É uma emergência e exige atendimento imediato.
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Perguntas Frequentes
Posso ter mais de um desses transtornos ao mesmo tempo?
Sim. Depressão e ansiedade frequentemente aparecem juntas no pós-parto. A avaliação psiquiátrica considera o quadro completo.
Como saber o que estou tendo?
Só a consulta com uma psiquiatra pode responder isso com precisão. Os transtornos do pós-parto têm sintomas que se sobrepõem, e o diagnóstico correto define o melhor tratamento.
Esses transtornos afetam o vínculo com o bebê?
Podem dificultar esse processo, especialmente nos casos mais graves. É um dos motivos pelos quais buscar ajuda cedo faz diferença, tanto para a mãe quanto para o bebê.
O pai ou o parceiro também pode desenvolver transtornos no pós-parto?
Sim. Parceiros também adoecem, especialmente quando a mãe está passando por dificuldades, quando há privação intensa de sono ou falta de rede de apoio. A estimativa de depressão paterna no pós-parto é de 4% a 10%.
Todos esses transtornos têm tratamento?
Todos. Com diagnóstico correto e acompanhamento adequado, a grande maioria das mulheres se recupera e retorna ao funcionamento habitual.
Este conteúdo é baseado em Cantilino A. et al., Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 2010; diretrizes da FEBRASGO; e critérios diagnósticos do DSM-5 (APA, 2013).




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