Posso tomar medicamento psiquiátrico durante a gravidez?
- Dra. Lorena Dornellas

- 30 de mar.
- 3 min de leitura
Por Dra. Lorena Dornellas — Médica Psiquiatra, CRM 63147
Essa pergunta chega ao consultório quase todo dia.
A gestante que já fazia tratamento psiquiátrico e descobriu que está grávida. A que começou a sentir que algo não vai bem em algum momento da gestação. A que já fez tratamento de saúde mental no passado. Todas chegam com a mesma angústia: e agora?
Esse texto existe para ajudar a organizar esse pensamento.
O medo faz sentido. Mas precisa ser proporcional.
Nenhuma mulher grávida deveria tomar um medicamento sem saber o que está tomando. O cuidado com o que entra no corpo durante a gestação é legítimo e importante.
O problema é quando esse medo leva a uma decisão que parece segura, mas não é: parar um tratamento de forma abrupta, ou não iniciar um tratamento necessário, por medo genérico de remédio.
A ciência mostra algo que muita gente não sabe: a doença mental não tratada durante a gravidez também tem consequências. Para a mãe e para o bebê. Não tratar não é uma opção neutra.
A pergunta que a psiquiatra faz é diferente
Não é 'esse remédio é seguro na gravidez?'. É uma pergunta mais complexa: qual é o risco de usar esse medicamento, comparado ao risco de não usar?
Esses dois lados precisam ser pesados juntos. O risco do remédio existe e é levado em conta. Mas o risco da doença sem tratamento também existe, e é frequentemente ignorado quando a conversa se concentra só no medicamento.
Estudos mostram que mais de 6 em cada 10 mulheres que param o antidepressivo ao engravidar têm recaída. Isso significa que a maioria das mulheres que para de tratar sem acompanhamento volta a adoecer durante a gestação. E gestação com depressão ou ansiedade grave não tratada tem riscos reais, incluindo para o desenvolvimento do bebê.
O que se sabe sobre os antidepressivos na gravidez
O antidepressivo mais usado na gravidez é da família dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Essa é a classe de antidepressivos mais estudada nesse contexto, com décadas de dados acumulados em gestantes.
De forma geral, esses medicamentos não causam malformações. Um grande estudo publicado no JAMA Psychiatry em 2019 acompanhou gestantes que usaram antidepressivos no primeiro trimestre e não encontrou aumento estatisticamente significativo de malformações congênitas.
Existe um antidepressivo dessa família que é evitado na gestação. Estudos encontraram associação com alterações cardíacas no bebê, e ele costuma ser substituído quando a mulher está grávida ou planeja engravidar.
Um ponto que preocupa muitas mães: bebês de mães que usaram antidepressivos próximo ao parto podem nascer com alguns sintomas de adaptação, como irritabilidade, tremores leves e dificuldade de sucção. Esses sintomas passam em até duas semanas e não deixam sequelas no desenvolvimento.
Quando a medicação não é necessária
Em casos mais leves, a psicoterapia costuma ser a primeira escolha e resolve bem. A terapia cognitivo-comportamental tem resultados comprovados para depressão e ansiedade na gestação e não envolve nenhum medicamento.
Quando a medicação é necessária
Em quadros mais intensos, esperar para ver ou apostar só na terapia pode ser arriscado. Nesses casos, tratar adequadamente, incluindo com medicamento, é a decisão mais segura para a mãe e para o bebê.
A decisão não é tomada pela psiquiatra sozinha. É construída junto com a gestante, com explicação clara dos riscos e benefícios de cada caminho, e alinhando com o obstetra quando necessário.
👉 Agende sua consulta: www.lorenadornellas.com | (31) 98476-7549
Perguntas Frequentes
Descobri que estou grávida e tomo antidepressivo. Paro agora?
Não tome essa decisão sozinha. Fale com a psiquiatra antes de parar qualquer medicamento. Parar de forma abrupta pode causar recaída, que é exatamente o que queremos evitar. A decisão de continuar, ajustar a dose ou trocar depende do seu quadro específico.
Antidepressivo pode machucar o bebê?
Os antidepressivos mais usados na gestação não causam malformações. O risco de não tratar uma depressão grave costuma ser maior do que o risco do medicamento.
Posso amamentar se estiver tomando medicação psiquiátrica?
Depende do medicamento. Alguns são compatíveis com a amamentação sem problema. Outros exigem uma avaliação mais cuidadosa. Essa conversa precisa incluir a psiquiatra e o pediatra do bebê.
Terapia resolve sem precisar de remédio?
Em muitos casos de depressão e ansiedade mais leve na gestação, sim. A terapia cognitivo-comportamental tem bons resultados e é sempre considerada como primeira opção. Em quadros mais intensos, a medicação pode ser necessária junto com a terapia.
Minha obstetra não sabe se devo continuar o remédio. O que faço?
A avaliação do medicamento psiquiátrico na gestação é uma decisão conjunta entre a psiquiatra e o obstetra. Se houver dúvida, busque uma consulta específica com uma psiquiatra que atenda gestantes para que os dois lados sejam analisados com calma.
Este conteúdo é baseado em revisão de psicofármacos na gestação do Portal Afya, Manual MSD de Segurança de Medicamentos na Gestação, JAMA Psychiatry (2019), e revisão publicada pela USP/ABCD (2023).




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